Viagem à eternidade das palavras
por Regis Gonçalves
(a João Cabral de Melo Neto, in memorian)
A mesa atrás de si, com os restos do café da manhã, ainda está posta. O poeta sente uma leve vertigem, nenhum torpor, nenhuma dor, e uma lucidez equivalente à claridade invasiva ainda possível de adivinhar. E uma cumplicidade das coisas, objetos familiares como o braço que o ajuda a sustentar-se diante da aguda paisagem interior, já despojada de temor ou remorso.
Haviam comido quase em silêncio, pontuado de frases curtas, as palavras que ultimamente tornaram-se dispensáveis adquiriam em si mesmas uma mínima solenidade. Migalhas de pão e pequenas manchas deixadas pelo líquido entornado indicavam o fim da refeição frugal de cada manhã. Tomara todos os comprimidos, todos, e os engolira contando-os um a um. Sentia-se reconciliado, pronto para o gesto inaugural de apaziguação, uma despedida sem adeus.
O mundo se coagulava em pormenores desprendidos da memória, fora de tempo e lugar. A pedra diluída em barro ia se liquefazendo na mancha tortuosa sobre a qual boiavam o pio de um pássaro, cantigas de infância, sussurros e rumores, olhos de sede, e as palavras, a lembrança da dura e fria iniciação ao seu convívio. Podia ouvi-las distintamente, ordenando uma arquitetura ideal que ele quis tornar poesia. As palavras e seu limite, remoídas em pó que se recusa a dispersar-se em moléculas e deixar-se levar pelo vento.
O poeta se volta, aponta o sofá para onde caminha, senta-se, está como se desprendendo desses fragmentos que compõem o ambiente imediato, acessível das coisas mais que presentes. A mão que o ampara sustenta apenas uma parte de si que já não é peso ou desejo de entendimento. O poeta raspa ainda mais o oco das reminiscências, remove as aparas do tempo, intenta promover a decantação última dos sentimentos. Mas é através deles que novas palavras se presentificam, tornam-se palpáveis na disposição de aliciá-lo, já não como forma pura, gesto lapidar, arte e cometimento.
É antes a proposta de um cântico, uma música que não coubera na arquitetura de sentidos anteriormente pretendida. De mãos dadas, o poeta agora move os lábios e reza, as palavras murmuradas se corporificando numa litania de sons imemoriais, clamores de solidão e comprazimento. Tudo nele interage em caos, essa não-forma de consciência que flui, rio de viagem caudalosa alcançando o estuário de um mar absoluto e definitivo. A cabeça tomba e se imoboliza num gesto arquetípico, estátua de sal que grava o corpo final de sua poesia.
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