quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

SONETO INCOMPLETO

Paulo Esdras · Salvador (BA) · 7/3/2008


Cunhado em sangue,
Marcado a fogo,
Cantado pelo silêncio,
Chorado em mares já navegados.

Palavras dispensáveis.
Versos que não alcançam...
Morrem afogados pelo desejo
E renascem como as esperanças.

Transformado, sempre transformado.
Mesmo sem chama, ilumina a lembrança
E aquece esquecendo o clima gelado da solidão.

Incompleto, sempre incompleto.
Como soneto sem último verso.


Retirado de: www.overmundo.com.br

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Tema da Semana: " Quando as palavras são desnecessárias"




Quando as palavras são dispensáveis…

-“Desculpe…estou só a ver se o empregado vem…”

-“Está na cozinha!”

Foi a resposta que obtive daquele homem que se colocou de frente para mim e me olhava descaradamente, que atrevimento, afinal estava á porta de uma tasca apenas frequentada por homens e aquela figura fazia com que todos os outros dessem pela minha presença e reparassem o mal estar que sentia.

Rapidamente virei costas e voltei para o calor da esplanada que subitamente me pareceu bem fresca, não demorou 2 minutos para que aqueles olhos se sentassem na mesa ao lado, bem de frente para mim, não deixando que nenhum gesto lhe escapasse…

Observo-o enquanto conversa, conhece um dos meus amigos, rosto longo de traços firmes, corpo magro e cuidado, aparenta quarenta e poucos mas o teor da conversa entre eles faz-me concluir que terá mais, intrometo-me no dialogo, quero saber mais sobre ele mas apenas consigo saber que é um filho da terra, longe á vários anos e que está de partida já no dia seguinte.

O telefone toca, é a Maria que me recorda a promessa que lhe fiz de jantarmos essa noite, despeço-me de todos, encaro-o para que se sinta como me fez sentir a mim: -“muito gosto em conhecer e até outra oportunidade…” nada obtive como resposta além de um aceno de cabeça e de um olhar que me acompanhou até que virei a esquina…

Parei de andar assim que mudei de rua, respirei fundo e comecei a rir sozinha, não era normal que alguém me deixa-se vulnerável, agora as acusações de ser uma pessoa fria não encaixavam no que acabava de viver, antes pelo contrario, ali o meu sangue tinha fervido com bem pouco.

- O restaurante seria escolhido ao acaso e tema de conversa já estava definido, os problemas emocionais que a Maria estava a viver - Penso enquanto me refresco mais uma vez, o calor do verão no Alentejo cola os tecidos ao corpo deixando-nos pegajosos.

Mal entramos no restaurante aqueles olhos estão de novo em mim…Com tantos restaurantes tinha que estar justamente naquele!

Faço questão de me sentar ao fundo da sala e costas com costas, mas de nada resultou a Maria acabou por me perguntar quem era, pois ele virava-se na cadeira descaradamente para olhar…Conto-lhe o sucedido e levo um pontapé por baixo da mesa para que me cale…

”Posso oferecer-vos uma bebida?”

Que ousadia…

Não me atrapalho: “Pagas mais logo quando nos puderes fazer companhia!”

A noite avançava á medida que percorríamos os bares sempre com aqueles olhos colados ao meu corpo mas sem dar hipóteses de uma aproximação.

Chegamos ao bar onde toda a gente acaba a noite e onde só se vai depois das quatro da manhã, nem tenho tempo de olhar em volta, sou puxada para um canto, “desta não escapas quero estar contigo, preciso estar contigo…”

Fico paralisada, a proximidade do seu corpo e o calor que a sua voz ao meu ouvido deixa-me atordoada, saímos dali, quase a correr, sem nada dizermos, rapidamente dou por mim na casa rústica, que eu sempre vi fechada e que me intrigava tanto… Mistério desfeito!

Parámos no meio da sala, sem palavras o seu corpo cola-se ao meu, vagaroso…

As suas mãos acariciam a minha nuca, a sua boca percorre o meu pescoço calmamente, deixando um rasto de fogo…

Os nossos corpos dançam sem música, encostando-se um no outro sedutoramente, os seus dedos percorrem a minha pele, todo o meu corpo arde…

Não há pressa, continuamos de pé provocando-nos mutuamente, sem deixar que o desejo seja consumado…

Creio que passaram horas desde que chegamos, arrastamo-nos para o quarto e só aí perco a minha primeira peça de roupa, ficamos a explorar cada centímetro de pele, não quero reagir, quero conter todas as sensações prolonga-las para sempre nos meus sentidos…poderia parar ali, despedir-me, ir embora, a minha alma estava saciada de prazer sem que o tivéssemos consumado…

Fico!

Perco-me no seu corpo, tomo o sabor a uma gota de suor que corre do seu peito e invade a sua barriga firme, faço-a tomar o caminho de volta, rolando brincalhona na ponta da minha língua…

Os nossos corpos encaixam naturalmente, como um bailado perfeito, unidos na intensidade…

Com os corpos abandonados um sobre o outro, deixamos a manhã invadir o quarto e sono cai sobre nós.

Entro em casa ainda recordando o beijo leve que lhe dei na testa, para que não acordasse…

Tenho um sorriso colado no rosto, mas de repente fico séria e as palavras voltam á minha boca num pensamento: “esqueci-me de perguntar como se chama…”

Por: Gemitta

foto:Gemitta