sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009



(Este é o conto de quem me desafiou e teve k me acompanhar...)

Este era um daqueles dias….

Este era um daqueles dias em que a incerteza do que sou e do que queria para a minha vida se apoderava de mim desde que tinha acordado.

Não me sentia motivado para voltar para casa. A minha mulher, Joana, estaria lá de sorriso nos lábios para me receber, mas eu não queria ser recebido. Queria por um dia ser esquecido e não entrar.

A minha mão abrandava à medida que se dirigia para o puxador da porta, como que me quisesse dizer para não avançar.

- Olá amorzinho! Como correu o teu diazinho? – ouvia eu na minha cabeça como que antecipando o que aí vinha.

Todos os dias a mesma frase e o mesmo abraço apertado, tão apertado, demasiado apertado. Um sorriso rasgado e uma servidão doentia. Eu precisava de espaço.

Casámos ainda jovens, depois de uns meros 9 meses de namoro. Ela queria e eu também.

Eu apenas tinha tido uma namorada. Ela, rapariga recatada de aldeia, cristã de formação, tinha-se guardado para alguém que viria a ser eu. E eu para ela era tudo.

Quando eu chegava a casa, Joana dedicava-se a adular-me e a mimar-me com pequenos presentes, refeições preferidas e beijos e carícias nos pontos que me faziam esquecer que precisava de espaço. E no dia seguinte o mesmo aperto e o mesmo sorriso feliz.

Hoje, eu chegava mais cedo. Tinha conseguido entregar todas as encomendas de forma rápida, pois o meu estado não me fazia distrair com o que normalmente me fazia levar mais tempo a fazê-lo.

A minha mão parou ao abraçar o metal frio do puxador e não fui capaz. Baixei a cabeça, respirei fundo com os olhos fechados e voltei para trás.

Entrei no carro e afastei-me dela e do seu sorriso perfeito.

Parei junto à casa do meu amigo João, mas também não entrei. As ruas estavam vazias devido ao frio e deixei-me ficar a ouvir o silêncio, com a cabeça para trás, encostada ao banco.

- Pedro! – ouvia-se do outro lado, abafado pelo vidro e pela minha dormência.

E de novo:

- Pedro!!!

Abri os olhos e do outro lado, inclinada sobre o carro, estava a Clara, uma colega de trabalho e muito amiga do João. Esbocei um ligeiro sorriso e acenei.

Ela fez-me sinal para abrir o vidro e eu obedeci devagar. Sabia que hoje estaria fraco demais para resistir às investidas da Clara.

Ela tinha os cabelos compridos, encaracolados em ondas perfeitas e umas sardas que nela pareciam perfeitas. E os seus olhos… pestanejavam devagar.

Desde que entrei para esta empresa que ela engraçou comigo. O João até brincava e dizia que eu tinha nascido com o rabo virado para a lua, pois a Joana também era bonita e com os seus 32 anos, mantinha a mesma bela figura de quando nos conhecemos.

- Que fazes aqui? – perguntou sorrindo.

Encolhi os ombros.

Ela deu a volta, abriu a porta e sentou-se no banco do lado, lugar que por direito era da Joana.

- Anda, vamos beber um copo. – disse, enquanto pestanejava devagar com uma ténue luz amarela e quente do candeeiro da rua a realçar as suas maçãs do rosto e o generoso decote.

Queria aceitar o convite, mas fiquei calado.

- Vá, deixa-te de coisas! Estive a trabalhar em casa do João e preciso de descontrair. – insistiu.

Liguei o carro, ela endireitou-se e tentou colocar o cinto de segurança. Não conseguia… ou não queria!

- Dás-me uma ajuda?

Tirei o meu cinto e debrucei-me para alcançar o dela, que propositadamente deixou do outro lado.

Já tinha sonhado com a Clara por diversas vezes e em todos eles ela aparecia semi-nua e desejosa para que eu a possuísse. Eu, devagar, bem devagar, pegava na sua mão e encostava o meu corpo nu ao seu. De pé, beijava-lhe demoradamente o pescoço, a orelha, roçava o meu rosto no dela, beija-lhe os olhos, agora fechados de prazer. A minha mão ainda caída e apenas com o polegar acariciava a dela em movimentos lentos e circulares.

Sempre o mesmo sonho!

Era óbvio que ela sabia que os seus belos peitos, apertados por suave algodão tingido de preto, iriam por certo atrair o meu olhar.

O meu braço, ao alcançar o cinto, tocava suavemente neles numa espécie de abraço consentido e esperado.

Este é o momento que qualquer um espera ter, o instante em que a curta distância entre os lábios e os corpos pegados “acidentalmente”, indicam que é o Agora.

Mas eu não fui capaz. Coloquei-lhe o cinto e disse-lhe:

- Eu deixo-te em casa.

Seguimos os dois calados, mas ela continuava a sorrir. Em que pensaria?

A distância era curta e depressa chegámos.

Ainda assim chegava mais cedo a casa do que o habitual.

Abri a porta calmamente, mas ao contrário dos últimos 10 anos, a Joana não me esperava. Estranhei…

Entrei na sala, espreite e chamei por ela sem resposta.

Do nosso quarto escapavam sons que se assemelhavam a vozes. Percebia-se que fosse quem fosse estava divertido.

Instantaneamente, assolou-me o pensamento absurdo de traição.

A minha Joana não! Pensei de seguida. Mas então porque não me mexia!!

Comecei a duvidar de todas as coisas que antes tinha como certas.

E as vozes pareciam cada vez mais altas.

Surgiam flashes com imagens da Joana arqueando as costas deitada numa cama, gemendo de prazer ao ritmo de penetração de um homem qualquer e soltando, por vezes, leves gritos como que a libertar toda a explosão interior.

A minha Joana não! Repetia em surdina de forma a apagar este fogo que em mim crescia.

Devagar, desloquei-me pelo corredor que parecia agora mais comprido.

As vozes, ainda imperceptíveis, subiam de tom.

Ganhei coragem e abri a porta de rompante, num gesto firme e decidido.

A cama sem corpos, o quarto sem gente.

Uma televisão esquecida debitava uma qualquer novela brasileira.

Em cima da cama um bilhete:

“Amorzinho, acabou-se o arroz e para te fazer o empadão que tanto gostas fui ao Continente. Se chegares antes de mim, por favor aquece a sala, pois hoje sinto-me sexy e vou comprar lingerie para logo. Beijos, a tua Joana.”

Por: Flash

Foto: rattus

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